As principais barreiras para a inovação no meio rural. A dificuldade de introduzir produtos inovadores no campo.

A dificuldade de introduzir produtos inovadores no campo esbarra tanto no foco impreciso de quem oferece quando na desconfiança do produtor em relação ao benefício da novidade.
Recentemente, apresentei a um grupo de estudantes apoiados por uma incubadora de projetos do agronegócio alguns insights sobre a dificuldade de se introduzir produtos inovadores no mercado. Ainda que, sob a perspectiva de quem os oferece, eles tragam vários benefícios ao produtor rural, resultando em aumento da rentabilidade do negócio. Este artigo resume essa discussão e tem o objetivo de compartilhar, com todos que trazem inovações ao mercado agrícola.

A primeira delas é efetivamente o foco no cliente. Muitos profissionais ficam tão entretidos pelo potencial que sua inovação oferece que não conseguem avaliar os benefícios pelo ângulo do cliente. O produtor tem capacidade de arcar com o aumento de produtividade no curto prazo? Ele está disposto a fazer altos investimentos iniciais para ter a tecnologia disponível naquele momento? O cultivo é a sua principal preocupação ou é a infraestrutura da propriedade o principal gargalo que enfrenta? Uma inovação não é adotada por um cliente quando ele não tem a cabeça voltada para aquela oferta. É preciso entender as suas necessidades em primeiro lugar para poder adequar a oferta. E essas necessidades variam de cliente a cliente.

Outro fator que impede a adoção de novas tecnologias é assumir que o produtor rural é resistente a elas. Será? Todos os produtores que visitei estavam abertos a inovações. O fato é que eles recebem muitas ofertas de produtos ou serviços inovadores, muitas delas sugerindo a mesma coisa – aumento de produtividade, diminuição de custos etc. Produtos que não seriam concorrentes entre si, terminam por concorrer pela atenção do produtor e ele, posso dizer com propriedade, está completamente perdido no meio de tanta oferta. Quer um exemplo? O mercado de agricultura digital – o estudo Radar AgTech Brasil 2019 identificou 1125 startups situadas em território brasileiro, das quais quase 90% localizam-se nas regiões Sul e Sudeste do País. Em agricultura digital incluem-se categorias como biotecnologia, novos sistemas agrícolas, marketplaces, programas de gestão agrícolas e IoT, robótica e mecanização, tecnologias midstream, venda direta ao consumidor. Outro exemplo em que as inovações têm sido destaque nos últimos anos é a indústria de nutrição vegetal que, segundo a Abisolo, apresentava 504 empresas ativas em 2018. Como decidir qual a melhor opção?

Daí vem a terceira barreira: escolher a tecnologia por meio de ensaios na propriedade. O que acontece nesse caso é que o produtor rural também não tem condições de testar tudo que é oferecido a ele, sob pena de sua propriedade ser usada como estação experimental de novas tecnologias e não para a finalidade pela qual existe – produzir alimentos e energia. Gerar renda.

Ainda assim, o produtor rural está fazendo o seu melhor ao selecionar as tecnologias para testar. Afinal, ele é o maior interessado. E isso muitas vezes isso gera a quarta barreira: falta de credibilidade no discurso. Muitas empresas, na ânsia de terem as suas tecnologias testadas pelo produtor, garantem um retorno maior do que a tecnologia propicia, o que é facilmente identificado no primeiro ano de ensaios em campo. Diferente do médico, para quem a terra esconde os erros, no caso dos agrônomos, a terra mostra os erros. E aí temos novamente a figura do produtor desconfiado, reticente, gerando uma nova barreira às inovações.

Fonte Dinheiro Rural

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