Como a energia elétrica se tornou o novo campo de batalha entre EUA e Rússia

Em dezembro de 2015, uma parte da Ucrânia ficou às escuras.

Foi uma noite dentro da noite: ninguém sabia ao certo o que tinha acontecido.

As usinas não haviam registrado nenhuma falha, os geradores funcionavam normalmente, tudo parecia correr dentro dos parâmetros.

Pouco depois, os especialistas descobriram a causa: as centrais de energia haviam sofrido um ataque cibernético, aparentemente coordenado por hackers russos, algo que o Kremlin nega.

Nos últimos dias, no entanto, chegaram pela primeira vez indícios de potenciais invasões do outro lado.

Uma reportagem publicada no sábado no The New York Times afirma que Washington também tem tentado penetrar na rede elétrica russa e inseriu nela alguns vírus para ativá-los em caso de conflito ou interferência do Kremlin em assuntos internos dos EUA.

Nenhum dos atores envolvidos confirmou a informação.

O presidente Donald Trump disse se tratar de “fake news” e questionou as implicações que a reportagem poderia ter para a segurança nacional dos EUA.

O Kremlin se limitou a afirmar que sua rede está segura, mas admitiu que há uma “possibilidade hipotética” de “guerra cibernética” entre as duas nações.

No entanto, a reportagem jogou luz novamente sobre uma “nova guerra fria” entre Rússia e os Estados Unidos que tem tido as redes elétricas como protagonistas.

As cruciais redes de energia

Michael Ahern, diretor de sistemas de energia do Instituto Politécnico de Worcester, nos Estados Unidos, disse à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC, que, nos últimos anos, a segurança das redes elétricas se tornou uma preocupação para muitas nações, não apenas pela “possibilidade de ataques terroristas, mas também por parte de governos inimigos”.

E, como ele explica, à medida que as redes elétricas se tornam cada vez mais dependentes de computadores e da troca de dados online, elas também se tornam mais vulneráveis a ameaças cibernéticas.

“É por isso que é provável que todas as nações estejam trabalhando para melhorar suas capacidades cibernéticas. Tem havido alguns registros de ataques que causaram cortes de energia na Ucrânia, e na América do Norte a Comissão Federal de Regulação de Energia exige aos operadores de rede que cumpram um plano de proteção de infraestrutura essencial”, diz ele.

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Image captionAs redes elétricas são vulneráveis a ataques cibernéticos

No entanto, segundo o especialista, as tentativas de algumas nações de penetrar na rede elétrica de outros países não são novas, em teoria.

“Os países sempre buscaram influir uns sobre os outros e têm usado as tecnologias eletrônicas como vantagem (por exemplo, o radar, a interceptação de sinais, a decifração de códigos)”, diz ele, apontando, no entanto, que um novo elemento muda as peças do jogo.

“Agora é possível hackear os sistemas de controle a partir de qualquer lugar do mundo e é muito difícil rastrear (os autores)”, diz ele.

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Image captionSão vislumbradas possibilidades de ataques a essas redes inclusive à distância

Especialistas apontam, no entanto, que este tipo de interferência nas redes elétricas também deve ser visto com cautela.

É que ambos os países contam com dois dos maiores sistemas energéticos do mundo: os Estados Unidos têm o segundo maior (apenas superado pela China), enquanto a Rússia ocupa a quarta posição (atrás da Índia).

Isso significa que a complexidade dos sistemas elétricos, a quantidade de instalações de geração e a infraestrutura que envolve a produção de eletricidade tornam muito difícil um ataque ter um impacto de grande escala.

A rede elétrica dos EUA, por exemplo, é altamente complexa: ela é composta por cerca de 3.300 empresas de serviços públicos que trabalham em conjunto para fornecer energia a seus usuários por meio de redes de mais de 320 mil quilômetros de linhas de transmissão de alta voltagem.

A Rússia, por sua vez, tem 20 empresas independentes de produção de energia, cerca de 440 instalações de geração, 496.000 subestações e cerca de 2,3 milhões de quilômetros de linhas elétricas.

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